Beth desceu devagar os degraus e olhou o ambiente ao redor. A boate fervia, luzes, e cheiros, e gritos, e olhos. Duas doses de uísque e ela começa a entender. Nunca é tarde demais quando se deriva à noite, e se perde, no escuro, medos e memórias, passados, injustificados e por fim, enterrados no fundo dos copos vazios.
Desliza as mãos
pelo tampo liso
as teclas brancas
longos dedos
repousam
derrubam vermelho
o vinho
gotas retumbam
o estrago
silêncio doce
no entanto
acordes
desafiam
desfiam
degraus
os saltos contínuos
batendo na madeira
o piso reflete
olhos baixos
e medo de tudo.
Depois de tudo, arriou o corpo na cadeira e deixou-se ficar. Silêncio danado. Para continuar, dar corda no relógio, engraxar os sapatos, escolher uma nova gravata, engolir a memória dura e calar. Olhos em redor, o passar do tempo não o fez perder velhos hábitos. Quando acordar, será tarde demais.
- Oi!
- Rauu!
- Tudo bem com você?
- Rrau-rrau!
(....)
- Merroow?
- Vou bem, obrigada! Como foi seu dia?
- Merow, merow, merow!!
Sim, perfeitamente, e o que mais aconteceu?
Arruuhhh...row-row-row, rew-rew-rew.
E depois?
Pruwwww! raw!
Nossa! Como você ficou ocupado hoje!
Prew-rew-row-brow-low!
Já sei, vamos ver o que tem na cozinha prá comer. Prá gato e prá gente!
brrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr!!!!
(Garrinhas felizes no tapete e pança cheia virada prá lua)
- Que sono... Boa noite!
- Iauhhhhhhh.........miow.
homenagem ao meu companheirinho maluco e fiel, Joseph, the cat.
Durante um tempo, esperou. A luz da tarde caía, sobre o rosto, na pele, em arrepios. Não está longe, pensou. Apertou os olhos e, aos poucos, divisou a silhueta no horizonte. Nada inesperado. Continuou parado ali, como se esperasse os minutos contados e precisos, longe, longe, perto, diante de si. Repouso. Respiro. Então, recomeçou a andar, em movimentos circulares, em passos perfeitos. Hoje, como ontem. Nunca declarar.
Atravessando a rua
Sentindo o cheiro
Não, assim não é possível
Trancando a fome dentro do corpo
Pisa na grama
Diante do campo
A flor apavorada
Minutinhos de sabedoria
Que não calam
A fúria
olhos encovados e modos delicados
Sem fala
Segunda branca
Folha de papel
A esferográfica em ponta
Linhas firmes
Curvas longas
Ponto e partida
Fina cor sobre a linha
Horizonte
Deixo ao acaso
Morno
Dormente
O dia
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
Então... bom dia.
Talvez
Sem foco
assunto
música
longe
Nem
Sem
ponto
com
quem?
Cantemos todos prá subir
descendo no ritmo alucinado
Pela boca da garrafa
Desce a alma
Sobe o fogo
Na rua estreita
até as pedras da calçada
Dão bom dia ao cavalo
Que descansa da lida
Comendo o lixo de cada dia
O pão que o diabo amassou
Lento, desce a rua. Pára na esquina, encosta no poste e espera. Respirando fundo para não esquecer. É importante se lembrar da sequência das coisas. Escorre uma água escura por debaixo do portão. Cães latindo à distância. Passa soturno em frente à janela, recolhendo pequenos pedaços de papel sujo no chão. Um gato arregalado espia de cima do muro. Pronto para começar, pára por um momento, indeciso. Por fim, cruza a soleira da porta. Cheio de gente murmurando no fim do corredor. Velas e flores envergonhadas contra a luz. Um latomia de gemidos e sons entrecortados. Começa a tremer, mas já não há mais volta. Suspirando, pensa: no fundo, estes grandes momentos da vida só servem para enjoar a gente.
Imagem: O Ovo Dogon. IN: Deleuze, Gilles: Guattari, Félix. MIL PLATÔS - CAPITALISMO E ESQUIZOFRENIA (Vol. 3). Rio de Janeiro: Ed. 34, 1996.(Coleção TRANS)
Um-dois, um-dois, um-dois, não pisa aqui! Dona Chica mandou pela estrada afora, se eu fosse bem contente seria uma boa menina. Tenho verrugas nos dedos mas nunca apontei pras estrelas. Não como figo da figueira nem roubei flor de defunto. Então quem é a marvada da sombra, me espiando no espelho?